Adoção de critérios ASG passa por educação do investidor e transparência

A maior disseminação do uso de critérios ambiental, social e de governança (ASG) no processo de avaliação de investimento depende, principalmente, de dois fatores: educação do investidor e divulgação de informações por parte das empresas. O tema norteou os debates sobre cases de sustentabilidade que aconteceu na tarde desta quarta-feira no 9º Congresso ANBIMA de Fundos de Investimento, em São Paulo.

Pesquisa realizada pela ANBIMA em 2016 mostrou que cerca de 70% das assets utilizam algum dos critérios ASG no processo de avaliação de investimento. Os dados foram apresentados pela gerente de Representação de Fundos de Investimentos e Serviços Qualificados da Associação, Tatiana Itikawa. Ela mediou um bate-papo com representantes da Santander, da Itaú e da Bradesco Asset Management, que apresentaram suas experiências com o tema sustentabilidade.

A Santander Asset Management lançou o fundo Ethical em 2001. “É um grande desafio mantê-lo de pé e garantir a constante avaliação dos ativos, pois é um fundo com um universo de investimentos limitado”, disse a analista responsável pelas avaliações ASG da Santander, Luzia Hirata. A metodologia de análise dos papéis foi criada há 16 anos e aprimorada ao longo do tempo. No início, alguns setores não eram sequer considerados, como tabaco, álcool e armamento. Com o desenvolvimento da metodologia, tornou-se possível perceber quais os impactos de determinada atividade para o fundo como um todo.

A Embraer, por exemplo, não entrava no Ethical por possuir uma linha de defesa que produzia caças, o que era entendido como armamento. Agora, é feita uma análise mais aprofundada que considera um peso para essa atividade, mas não retira do fundo os papéis da companhia.

Um critério bastante objetivo utilizado na metodologia da Santander Asset é o trabalho escravo. Ele é relativamente simples de ser considerado devido à “lista suja” divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Já na Itaú Asset Management, a análise de quesitos ASG começou em 2004 com o lançamento do fundo Fies (Fundo Itaú de Excelência Social), que ganhou a assinatura do PRI (Principles for Responsible Investment) em 2008. O modelo foi aprimorado ao longo dos anos e, atualmente, a maioria dos fundos da asset é coberta pela análise de ASG. “Passamos de uma estratégia de produto para uma estratégia de negócio, que faz parte do nosso dever fiduciário”, comenta o senior portfolio manager na Itaú Asset, Renato Eid.

Eid destacou o aspecto ambiental, como a tendência mundial pela cobrança da utilização da água e o quanto isso pode diminuir a margem das empresas.

A analista ASG da Bradesco Asset Management (Bram), Raquel Costa, focou sua apresentação na questão de governança. “Analisamos 100% das assembleias das empresas em que temos participação. Olhamos a pauta e se há aspectos sociais e ambientais que permeiam as decisões da companhia”, explicou.

Com 250 empresas no seu radar, a Bram realiza sempre uma análise comparativa, focando na companhia, no setor e passando um feedback do desempenho de cada uma em relação às competidoras. “É um verdadeiro trabalho investigativo para entender se a empresa é exatamente aquilo que ela demonstra nos relatórios de sustentabilidade”, disse Raquel.

Questionado sobre os principais desafios no início das análises da ASG, Renato destacou o desconhecimento sobre o tema e a necessidade de se trabalhar a educação e a divulgação de informações sobre o assunto. “Quando avançamos na catequização sobre a sustentabilidade, as pessoas questionam: mas isso vai me gerar valor ou você quer me convencer de comprar algo que eu nunca quis?”, afirmou.

Quanto às perspectivas para o setor, Luzia destacou a relevância dos papéis considerados greenbonds. “São títulos discutidos no mundo todo e, apesar de estarem crescendo no Brasil, ainda não fazem parte da nossa realidade”, comentou. Para Raquel Costa, é importante que a sustentabilidade seja um tema trazido pelos CEOs e CIOs das empresas, para que realmente ganhe relevância na pauta das companhias.