Queda dos juros estimula o debate sobre o valor das gestões ativa e passiva

A discussão sobre qual tipo de gestão – a ativa ou a passiva – é mais vantajosa ao investidor deve ganhar força no Brasil, impulsionada pela queda dos juros. O tema foi discutido no 9º Congresso ANBIMA de Fundos de Investimento, que terminou nesta quinta-feira em São Paulo.

Os aplicadores, hoje acostumados aos elevados retornos de fundos passivos (como os fundos DI), podem ser levados a buscar rendimentos mais polpudos, seja por meio de investimentos mais arriscados e/ou por fundos ativos, que buscam superar determinado indicador (benchmark).

Amin Rajan, diretor-presidente da CREATE – Research, disse que os fundos de ações passivos vêm despontando nos últimos cinco anos e atraindo recursos, enquanto os ativos falharam em render mais que seus benchmarks e perderam atratividade, especialmente nos Estados Unidos.

Desde 2007, os passivos registraram fluxo positivo de US$ 1,4 trilhão no mercado americano, incluindo aí os fundos de ações passivos comuns e os Exchange Traded Funds (ETFs). Já os ativos tiveram captação negativa de US$ 1,2 trilhão, de acordo com dados do Investment Company Institute (ICI), do Simfund e do Credit Suisse. Uma hipótese para explicar a situação nesse período, acredita Rajan, é a de que os mercados em alta favorecem os fundos ativos, enquanto na baixa, são os passivos que despontam devido às taxas de administração inferiores.

Outro ponto é que a taxa de administração pesa bem mais num ambiente de juros próximos de zero ou muito baixos, como ocorre atualmente no mundo desenvolvido. “Os fundos passivos são uma forma de investir a baixos custos”, diz Ankul Daga, estrategista sênior de investimentos da Vanguard – para quem o investidor precisa analisar se está recebendo “valor” em troca da taxa de administração que paga, esteja num fundo ativo ou passivo: “Mais de 50% dos fundos ativos não batem o benchmark”, afirma.  

No Brasil, os fundos passivos são a maioria do mercado porque o ativo livre de risco (títulos do Tesouro Nacional) já paga juros muito elevados, sendo necessário correr muito mais risco para obter retornos extras, acredita Marcelo Giufrida, sócio da Garde Asset Management. Mas ele acredita que há muito espaço para os fundos ativos, dado que nosso mercado é bem menos eficiente do que o americano, onde a disseminação das informações é ampla e há um número superior participantes. Nessas condições, a gestão ativa enfrenta o desafio de encontrar distorções de preços para gerar retornos adicionais. Essas oportunidades seriam mais abundantes por aqui.

“Acredito que tanto a gestão ativa quanto a passiva têm o seu espaço. No Brasil, por conta da esperada queda dos juros, será mais importante decidir em qual classe de ativo aplicar, em vez de discutir se a gestão será ativa ou passiva”, afirmou Luciane Ribeiro, diretora do Banco Alfa. Ela afirmou estar confiante e otimista com a redução dos juros, e espera que os investidores reduzam a aversão a risco e migrem para fundos multimercados e de ações: “Eles terão de se conscientizar de que obter, ao mesmo tempo, liquidez e alto retorno não é condizente com a realidade”.  

Já Giufrida se mostrou bem mais cético com relação à migração dos investidores para fundos de maior risco ou mesmo para fundos ativos: “É necessário, antes, reconstruir o mercado de capitais. Todas as vezes em que os investidores brasileiros tentaram ir para o risco, se machucaram. Por conta disso, são céticos em investir em produtos de maior valor agregado”, afirmou. Ele cita como exemplo os investidores institucionais, que nos últimos 15 anos entraram e saíram dos ativos de risco em momentos errados.

Para Giufrida, não será apenas a queda dos juros que fará esse investidor voltar ao mercado acionário: é necessário resolver questões regulatórias para que ele diminua a aversão ao risco. Dentre os problemas que precisam ser atacados, segundo ele, estão o curto horizonte que as fundações têm para resolver déficits atuariais, a legislação engessada da previdência aberta e a questão fiduciária e a parca proteção ao acionista minoritário em operações de fusões e aquisições. “A melhora regulatória seria um grande passo para reconstruir o mercado”, disse.